A data no prontuário médico assustou a ponto dela ficar brava. Ora, se é para me dizer que o tempo urge, que o tempo passa, que o tempo existe e devora, que escrevesse logo vinte anos desperdiçados com literatura, música, bloqueios e nada, nenhum amor. Mas ficou olhando para os pés descalços e para a moça que dizia incansáveis instruções, um passo para a direita, por favor, não se mexa agora. Imóvel enquanto a máquina de ressonância ou magnetismo, ela não saberia dizer, girava ao seu redor, sentiu os pensamentos inundados de lágrimas. Besteira. É que essa coisa de envelhecer deixa a gente maluco. Todo ano era igual, desde que tinha 14 anos e começou a pedir para encontrar alguém especial. Encontrou alguns, mas nenhum resistiu aos muros que criara pacientemente, ao desprezo gratuito, ao medo de se envolver. E agora que não haveria mais festas para encobrir o silêncio, pois o tempo de festas passara rápido, como todos os tempos. Pensou ouvir a risada zombeteira da recepcionista burra, mas apaixonada. Dezenove anos e onze meses, repetiu. E, calçando os sapatos, novamente. Dezenove anos e onze meses.
“Oh you can hold her eggs
But your basket has a hole
You can lie between her legs and go looking for
Tell her you’re searching for her soul
You can wait for ages
Watch your compost turn to coal
Time is contagious
Everybody’s getting old”
coconut skins, damien rice.




3 Comentários
Maio 20, 2008 às 6:58 pm
Lindo!
Maio 22, 2008 às 7:08 pm
Lindo! (2)
Ainda assim, nem sempre mais é menos, moça.
:*
Maio 24, 2008 às 9:09 pm
Dezoito anos, um mês e vinte e cinco dias. E nenhum amor que tenha tido sucesso.
O tempo às vezes joga na cara: você atrai solidão!
Pelo menos na minha.
(L)Amo você.